Terapia afirmativa com pessoas LGBTI+
A formação em psicologia não é neutra. Assim como toda prática social, ela é atravessada pela cultura em que está inserida — uma cultura historicamente heteronormativa, cisnormativa e marcada por preconceitos contra pessoas LGBTI+. Durante muito tempo, a própria psicologia reforçou estigmas, classificou identidades como transtornos e legitimou práticas de exclusão, contribuindo para a manutenção de desigualdades.
Reconhecer essa herança é fundamental para compreender a importância da terapia afirmativa. Essa abordagem surge justamente como uma resposta ética e crítica a essas práticas, buscando construir um espaço de acolhimento e respeito. Diferente de intervenções que pretendem corrigir, reverter ou adequar a sexualidade e o gênero das pessoas, a terapia afirmativa parte do princípio de que não há nada a ser consertado. O que existe é uma identidade legítima, que merece ser afirmada, fortalecida e vivida em sua plenitude.
Quando falamos em saúde mental da população LGBTI+, precisamos considerar também o chamado estresse de minoria. Ele acontece quando alguém, por pertencer a um grupo historicamente discriminado, enfrenta situações constantes de preconceito, exclusão e violência. Isso pode aparecer em diferentes lugares: na família, no trabalho, na escola, nas ruas.
Essas experiências acabam deixando marcas profundas, que podem se manifestar em forma de ansiedade, depressão, isolamento, dificuldade de construir vínculos e até pensamentos de não querer mais viver. Não é a identidade em si que causa sofrimento, mas o modo como a sociedade trata quem se afasta da norma heterossexual e cisgênera.
A terapia afirmativa reconhece esse cenário e oferece um espaço seguro para falar sobre essas dores. Mais do que isso, busca ajudar cada pessoa a encontrar caminhos de fortalecimento, autonomia e valorização da própria história, transformando a experiência de exclusão em possibilidade de vida mais plena e autêntica.
Na prática, a terapia afirmativa oferece um espaço seguro e sem julgamentos, no qual é possível:
Explorar sentimentos, relações e experiências de forma livre;
Fortalecer autoestima e identidade;
Refletir sobre como o contexto social impacta a vida pessoal;
Desenvolver recursos para lidar com discriminação e exclusão;
Apoiar processos de autodescoberta, aceitação e afirmação.
Mais do que uma técnica, a terapia afirmativa é um posicionamento ético e político: promover saúde mental com empatia, respeito e compromisso com os direitos humanos, reafirmando que cada pessoa tem o direito de viver de acordo com quem realmente é.
Como trabalhamos a Terapia Afirmativa na Prática Psicanalítica?
A psicanálise oferece instrumentos e sensibilidades que se mostram especialmente úteis para a terapia afirmativa. Isso porque permite olhar para o sujeito em sua singularidade, ao mesmo tempo em que reconhece como a cultura, a linguagem e as normas sociais atravessam sua vida psíquica.
Na prática psicanalítica, isso significa:
Escuta sensível aos atravessamentos sociais: atenta ao que é dito, mas também aos silêncios, às tensões e às marcas culturais que estruturam a narrativa de cada sujeito.
Interrogar pressupostos normativos: questionar categorias cristalizadas que, ao se apresentarem como universais, acabam excluindo ou marginalizando dissidências.
Analisar o impacto da normatividade na subjetividade: compreender como a heteronormatividade, a cisnormatividade e o estigma podem produzir sofrimento psíquico, e trabalhar para acolher e ressignificar essas experiências.
Fazer do setting terapêutico um espaço politicamente implicado: reconhecendo que não existe neutralidade absoluta, o analista se responsabiliza por suas próprias posições, preconceitos inconscientes e formas de poder.
Dar lugar à singularidade: ao invés de generalizações ou classificações rígidas, trabalhar a partir da experiência única de cada pessoa, reconhecendo sua identidade e subjetividade como legítimas.
Assim, a terapia afirmativa em uma perspectiva psicanalítica se consolida como um espaço de resistência e criação, onde é possível sustentar a singularidade de cada sujeito frente às normatividades sociais, e construir um processo de cuidado que reafirma a dignidade e a potência de ser quem se é.

